O sofrimento de cada um de nós | CADA UM DE NÓS - parte 1

13.2.19


Ei você! Sim, você mesmo. Não você, o outro ali, de camisa branca e bermuda preta.

Isso, você!

Não! Não, por favor! Não quero o seu celular e tão pouco o seu dinheiro. Tá bom, eu sei que a natureza não me dotou com beleza, mas também não precisa de tanto.

Acredito que pela sua reação você não deva assistir série policial né, onde os bandidos são os bonitões, gente fina e rica (e olha, se parar para pensar, não foge muito da realidade não viu).

Que?

Louco? Eu?

Como assim?

Não moço, você entendeu tudo errado – já não me aguento, e meus olhos ganham vida própria ao serem revirados, me dando uma cara de quem pensa “ai que saco”. Quem começou a supor coisas estranhas foi você e não eu.

Isso, VOCÊ! Então, vai me deixar falar ou não?

Vai chamar a polícia? Mas pra que?

Eu o que?

Ai moço. CALA A BOCA E ME ESCUTA – falo irritado. Por favor!

Moço, moço. Por favor, eu preciso que me ouça – em menos tempo do que consigo calcular a minha irritação dá lugar a angustia, desespero, e por isso imploro.

Sinto que não somente o moço que acaba de sair correndo, indo para longe de onde estou, não quer me ouvir, mas todas as outras pessoas também. Tenho chorado muito, orado muito e muitas vezes implorado também. Mas sinto que nada e nem ninguém realmente está aqui para mim. Meu peito se aperta em uma dor dilacerante, fazendo com que o mais profundo do meu ser grite e esperneie. Já não sei se aguentarei por muito mais tempo.

Tenho gritado por socorro, procurado por ajuda, mas todos somem ao meu menor sinal de aflição.

Busco por aqueles que um dia me disseram que estariam sempre aqui comigo, mas não os encontro, pois perderam-se de mim. Ou talvez, na possibilidade que estremeço em considerar, fugiram como cachorrinhos assustados quando sentiram o peso real de suas palavras. Mas se isso os assusta, os amedronta, porque então insistem em falar? Para amaciar seus delicados egos? Ou para satisfazer os ouvidos daqueles que anseiam por ouvir e sentir o toque suave e o doce sabor de tais palavras?

Não sei a resposta para os presentes questionamentos, nem para os questionamentos passados ou futuros. Não sei. Não sei quem eu sou, quem eu fui ou quem serei. Isso, é claro, considerando que eu vá aqui permanecer por mais algum tempo além.

Além do que?

Também não sei.

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5 comentário(s)

  1. Que texto mais sensível. A forma como você colou, nos dando apenas a visão d quem está "escrevendo", ficou linda.
    Eu e uns colegas temos discutido sobre como cada um de nós carrega um sofrimento, muitas vezes silencioso. É como se cada pessoa nesse mundo estivesse numa própria aflição, e o pior é que parecem ignorar o que estão sentido e o que os outros sentem também. Está faltando muita empatia nesse mundo!

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  2. Oi Jennifer, tudo bom?
    Estaria mentindo se dissesse que não fiquei totalmente arrepiado e angustiado do início ao fim do conto. Eu não consegui desviar o olhar um segundo da tela enquanto lia, e o aperto no coração só aumentava a cada palavra. Que obra maravilhosa, parabéns.
    Abraços,
    Luciano | Literalize-se

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Você escreve extremamente bem. Eu amo escrever textos, mas nunca tentei escrever desta forma. Meus textos são sempre demonstrando sentimentos do momento.
    Gostei muito do seu blog também. Dei uma stalkeada em outros textos.

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  5. Que angustia ler o começo desse texto. Todos nós temos nossos sofrimentos, nossas angustias e dor, mas infelizmente preferimos ignorar tanto os nossos sentimentos como os dos outros, acho que é aí que surge um ciclo infinito de pessoas sofrendo e fazendo os outros sofrerem.

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